A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (18) projeto de
decreto legislativo que reconhece estado de calamidade pública no Brasil
em decorrência da crise do coronavírus.
O texto foi aprovado em
votação simbólica. O projeto exigia maioria simples, ou seja, era
necessária a presença de ao menos 257 deputados para que a votação
ocorresse.
Após a Câmara, o Senado deve aprovar texto que também reconhece o estado
de calamidade. Por ser decreto legislativo, o projeto não precisa do
aval do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), segundo o presidente da
Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
O projeto de decreto legislativo foi
elaborado em resposta à mensagem enviada pelo presidente Jair Bolsonaro
na noite de terça-feira (17).
Pelo texto, relatado pelo deputado
Orlando Silva (PCdoB-SP), o Câmara aprova projeto de decreto que
reconhece calamidade pública por coronavírus, que desobriga o governo de
observar a meta de resultado primário e a fazer contingenciamento das
despesas para cumprir as estimativas iniciais.
O projeto cria
também uma comissão mista, formada por seis deputados e seis senadores,
com mesmo número de suplentes. O grupo terá como objetivo acompanhar a
situação fiscal e a execução orçamentária e financeira das medidas
adotadas para conter a disseminação do coronavírus.
A comissão
poderá trabalhar virtualmente, alinhada com a decisão do Congresso de
reduzir a presença de parlamentares nas duas Casas para evitar o
alastramento da doença.
Os membros do colegiado se reunirão todos
os meses com o Ministério da Economia para monitorar a situação fiscal e
a execução orçamentária e financeira das medidas.
Além disso,
bimestralmente a comissão fará audiência pública com o ministro Paulo
Guedes (Economia) para apresentar e publicar relatório sobre a avaliação
das medidas adotadas.
Os deputados rejeitaram alterações
propostas ao texto. Uma delas queria reduzir de mensal para quinzenal as
reuniões da comissão mista. A outra indicava que a decretação da
calamidade pública não implicava autorização para decretação de estado
de defesa ou de sítio.
Antes da aprovação, Maia havia defendido
que a solução para a crise passava pelo governo aportar recursos para
"proteger os brasileiros mais simples, mais vulneráveis" e manter os
empregos diante da possibilidade de demissões no setor privado pelo
impacto econômico da epidemia.
"E mais importante, a decretação
de calamidade abre espaço fiscal, abre espaço para o governo poder
aplicar mais recursos na área de saúde", disse.
A medida teve o
respaldo de partidos de todo campo político. O líder da oposição na
Câmara, deputado André Figueiredo (PDT-CE), disse que a decisão do
governo foi uma surpresa positiva. "Nós estávamos muito preocupados com o
governo federal praticamente omisso", afirmou.
O parlamentar
defendeu a criação da comissão para acompanhar as ações do governo. "A
gente não pode deixar de achar que o Poder Legislativo, até pelo
protagonismo que tem tomado por conta da omissão do Poder Executivo vai
entregar tudo para o Poder Executivo e, de repente, a gente vai ficar
sem qualquer tipo de acompanhamento. Não é controle, não queremos
controlar nada, mas queremos acompanhar a priorização e execução."
O projeto foi elaborado após o governo pedir ao Congresso que reconhecesse calamidade pública pela crise do coronavírus.
Na
noite de terça, nota divulgada pela Secom (Secretaria de Comunicação
Social da Presidência da República) indicou que o pedido foi feito
também por causa do "monitoramento permanente da pandemia Covid-19" e em
virtude "de proteger a saúde e os empregos dos brasileiros e da
perspectiva de queda de arrecadação".
"O reconhecimento do estado
de calamidade pública tem suporte no disposto no art. 65 da Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF) o qual dispensa a União do atingimento da
meta de resultado fiscal prevista na Lei de Diretrizes Orçamentárias
(LDO) e, em consequência, da limitação de empenho prevista na LRF",
escreveu a Secom.
Nesta quarta, o presidente Jair Bolsonaro reconheceu que o estado de calamidade pública impactará a atividade econômica do país.
Em
mensagem presidencial enviada ao Poder Legislativo, solicitando o
reconhecimento do decreto, ele ressaltou que os impactos da pandemia da
doença poderão levar a uma queda do PIB (Produto Interno Bruto) deste
ano.
"De fato, as medidas necessárias para proteger a população
do vírus que desaceleram a taxa de contaminação e evitam o colapso do
sistema de saúde implicam inevitavelmente forte desaceleração também das
atividades econômicas", disse.
A mensagem do presidente ressalta
ainda que medidas de precaução, como a redução de interações sociais e o
fechamento temporário de comércios e indústrias, "devem causar grandes
perdas de receita e renda para empresas e trabalhadores".
"Não há
como evitar o choque recessivo no curto prazo, que deve afetar a
maioria dos países do mundo, inclusive o Brasil", disse. "É inegável
que, no Brasil, as medidas para enfrentamento dos efeitos da enfermidade
gerarão um natural aumento de dispêndios públicos, outrora não
previsíveis na realidade nacional", acrescentou.
A mensagem
ressalta ainda que a pandemia da doença gerará arrefecimento da
trajetória de recuperação da economia brasileira e diminuição
significativa da arrecadação do governo federal.
"Neste quadro, o
cumprimento do resultado fiscal seria temerário ou manifestamente
proibitivo para a execução adequada dos orçamentos fiscal e da
seguridade social, com riscos de paralisação da máquina pública",
observou.
Fonte; Folha-PE
quarta-feira, 18 de março de 2020
Câmara aprova projeto de decreto que reconhece calamidade pública
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