
Neste artigo, o autor fala sobre a epidemia de apostas que se instaura no Brasil e no meio digital. Confira:
As apostas venceram. Não com honra, mas com astúcia. Não pela transparência, mas pela penetração silenciosa num Brasil já fragilizado. As chamadas bets, outrora tratadas como novidade digital, tornaram-se rotina, vício, e em muitos lares, maldição. Deixaram de ser distração para se tornarem tragédia. Hoje, os sites de apostas ocupam o segundo lugar entre os destinos mais acessados da internet brasileira, atrás apenas do Google. Superaram redes sociais consolidadas, como Instagram, WhatsApp e TikTok. São acessados 2,7 bilhões de vezes por mês. E não se trata apenas de números. Trata-se de vidas. De famílias. De dignidade.
Essa epidemia não atinge apenas jogadores profissionais ou apostadores inveterados. Ela escorre pelas frestas da desigualdade e se infiltra nas casas humildes, nos celulares dos mais jovens, nas mãos de pais e mães que, por desespero ou desinformação, se entregam à promessa de enriquecimento instantâneo. É uma ilusão de progresso que escancara nossa realidade emocional e econômica em colapso. Segundo dados do Banco Central, só entre beneficiários do Bolsa Família, mais de três bilhões de reais foram movimentados em apostas online num único mês. Três bilhões. Dinheiro que deveria servir à mesa, ao gás, ao remédio. Dinheiro que deveria proteger, mas agora destrói.
O mais cruel nesse cenário não é apenas o vício que se instala. É a normalização desse vício. O cassino não exige mais porteiro nem identidade. Ele mora no bolso. Funciona vinte e quatro horas por dia. E fala a linguagem do desespero. Quem nunca aprendeu educação financeira, quem já vive pressionado pela falta, facilmente se torna presa de promessas coloridas, odds chamativos e bônus mentirosos. E quando tudo ruir — porque tudo ruirá — sobrará apenas silêncio, vergonha e dívida.
É impossível ignorar os relatos que já se acumulam em todos os cantos do país. Jovens se matando após perderem tudo. Famílias desfeitas. Trabalhadores vendendo o pouco que têm para sustentar a compulsão. Casos assim não são exceção — são sintomas. Estamos diante de um fenômeno nacional, uma epidemia silenciosa que avança com o apoio da omissão e o incentivo da indiferença. A mídia os chama de “players”, “gamers”, “apostadores”. Mas são, muitas vezes, pais de família desesperados, adolescentes vulneráveis, mães iludidas, cidadãos sugados por um sistema que lucra com sua ruína.
Enquanto isso, cresce também o exército de influenciadores pagos para romantizar a ilusão. Prometem liberdade financeira, ostentam carros de luxo, espalham slogans de vitória. Vendem o sonho de subir na vida, mas omitem o abismo que se esconde sob a plataforma. São os novos sacerdotes do bezerro de ouro, disfarçados de empreendedores digitais. Quem os segue não é apenas enganado: é conduzido ao vício como quem entra em uma sala escura achando que encontrará luz.
E não se pode esquecer do papel do Estado. As bets foram legalizadas sob o argumento de que gerariam recursos para o esporte, a saúde e a seguridade social. Mas onde estão os resultados concretos dessa promessa? Onde estão os programas de prevenção, os centros de acolhimento, as campanhas de conscientização? O que se vê é lucro para poucos e sofrimento para muitos. As estruturas que deveriam proteger o cidadão parecem, mais uma vez, ajoelhadas diante do capital.
É preciso dizer com todas as letras: há quem esteja enriquecendo às custas do empobrecimento mental, moral e financeiro do povo. E se você, leitor, é influente — se lucra com isso, se patrocina, se compartilha — saiba que está ajudando a empurrar vidas para o buraco. Pode não ser agora, pode não doer em você, mas alguém, em algum lugar, está perdendo tudo por causa de uma mentira que você ajudou a espalhar. Dinheiro fácil tem um preço alto — não pra quem ganha, mas pra quem perde tudo tentando ganhar.
Não escrevo isso como moralista. Escrevo como homem que observa com tristeza o adoecimento de uma sociedade que trocou o vínculo pelo vício, a conversa pela notificação, a esperança por um código promocional. Vivemos conectados, mas vazios. E nesse vazio, os cassinos digitais têm encontrado solo fértil. Lares antes cheios de afeto agora estão cheios de silêncios e telas. E quando o silêncio impera, o desespero grita.
É urgente reverter esse curso. Não com censura, mas com consciência. Com políticas públicas sérias, com educação financeira real nas escolas, com responsabilização das plataformas e dos seus promotores. Com campanhas que tratem o vício em apostas como o que ele é: um problema de saúde pública. E com pais, mães, líderes comunitários e religiosos que tenham a coragem de dizer: “não aceitamos isso para os nossos filhos”.
É também hora de rever o conceito de sucesso que estamos aplaudindo. Nem todo sucesso é virtude. Muitos são erguidos sobre mentiras, ambição desmedida e a exploração da dor alheia. Precisamos resgatar a ideia de dignidade. De verdade. De propósito. Porque, no fim das contas, não é sobre vencer. É sobre permanecer inteiro. E inteiro é aquele que não vende a alma, ainda que o mundo ofereça muito em troca.
Que esse artigo não seja apenas um desabafo. Que seja um chamado. Um alerta. Uma súplica. Que cada leitor olhe para sua casa, para seus filhos, para si mesmo, e pergunte: o que estou permitindo entrar? O que estou ensinando com meu exemplo? Que Brasil quero deixar?
Ainda há tempo. E esse tempo é agora.




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